Sabe, eu sempre acreditei
que em algum lugar, não importava onde, haveria um par de sapatos perfeito pra gente. Aquele
par que caberia impecavelmente nos nossos pés, sem apertar, sem ser folgado,
enfim, perfeito. Que fosse macio, que combinasse com todos os lugares, se
adaptasse a qualquer clima da estação, que suportasse tudo, que nunca se
gastasse, pois sendo ele perfeito, ficaria a cada dia mais bonito e mais
adequado, mais encaixado pra gente. Aquele par de sapatos que não faz criar
calo na gente, que não machuca o nosso pé, que ficaríamos com ele o dia todo e
ainda sim ele estaria ali, macio e confortável pra gente. Acontece que eu acho
que esse par de sapatos não existe (é, acho, pois dizem que a esperança é a
última a morrer né?), e esse não existe implica em dizer que as dores nos meus
pés, os calos, os estragos chegaram a ficar muito intensos. Logo comigo, que
não ligo pra sapato bonito, alto, fino, de marca, na moda, nada disso... E
mesmo assim, os pares me machucaram, e eu desisti. Desisti de querer um par de
sapatos perfeito. De agora em diante, só andarei descalça, talvez assim, eu
preste mais atenção pelos lugares por onde ando e como resultado tenha menos
machucados nos pés, e se machucá-los, culparei a mim e não aos pobres pares de
sapatos. É, seria fácil se eu realmente estivesse falando de sapatos e não de
amor. Porque assim como o sapato perfeito, o amor também não machuca.
"Já escolhi meu sapato que não vai mais me apertar." Raul Seixas
