A
ferida foi aberta novamente, de novo, o mesmo lugar, o mesmo motivo, a mesma maneira. Por quê? Não me conte mentiras, não precisa, eu já sei. Volto para
frente do espelho, agora embaçado pela água quente do chuveiro, vejo o meu
corpo nu desfocado nele. Abro os meus braços e pergunto novamente: por quê?
Olho
para o meu corpo e não tem nenhum rabisco, foi isso? Chego perto e olho os meus
olhos, eles precisam de vidro para enxergar, foi isso? Vejo as minhas olheiras,
tão escuras e fundas, foi isso? Passo a mão pelo meu cabelo e digo: droga,
tenho que retocar a raiz. Foi a cor? Passo a mão pelo rosto molhado, não, não é
de água... Foi isso?
A
passagem estava comprada, dia 25 cedinho pegaria aquele ônibus que me levaria a
você, eu sei, você não sabe. O presente de natal e de aniversário já estava
escolhido. O cartão já estava escrito. Era isso que fazia nas minhas horas de
almoço, eu de alguma forma, as entregava pra você. Escolhendo, escrevendo,
procurando com aquela minha internet 3g horrível. Eu sei, você não sabe.
Mas
então você se foi.
Eu
pedi para eles cuidarem de você. Eu sei, você também não sabe. Mas então eu sei
que você se foi. E isso, você sabe. Me restou arrumar a bagunça, coloquei você
numa caixinha, guardei num lugar secreto no meu guarda-roupa (onde você não
possa cair e muito menos se machucar). Enxuguei novamente as lágrimas e disse
pela última vez: Vá... Eu amo você