“A identidade me
é proibida mas meu amor é tão grande que não resistirei à minha vontade de
entrar no tecido misterioso, nesse plasma de onde talvez eu nunca mais possa
sair. Minha crença, porém, também é tão profunda que, se eu não puder sair, eu
sei, mesmo na minha nova irrealidade o plasma do Deus estará na minha vida.”
Clarice Lispector em A Paixão
Segundo G.H.
A cabeça já não aguentava mais, o corpo já não me suportava, os olhos já
estavam tão vermelhos e inchados que eu já não conseguia me reconhecer
fisicamente, e o coração? O coração estava doendo, sim, não, não literalmente,
mas estava doendo de estar sendo mal tratado. Encontrava-me cansada de moer e
remoer um sentimento inexplicável, irracional, invisível aos olhos, tão
palpável como tentar segurar o ar com as mãos... Resolvi então me deixar ser
vencida pelo cansaço, e foi aí que finalmente em meios aos meus pensamentos,
adormeci.
E em algum momento de minha total dormência,
um anjo, sim, um anjo surgiu para mim: tão leve, tão lindo, tão intocado e
falou:
__Acalma esse coraçãozinho menina!
Você ainda duvida que algo foi tirado de você? Acalma-se, acalma-se, acalma-se,
pois o que é seu está guardado e está chegando. Não duvide!
Ele então me deu um beijo tão
amável, puro e delicado no meu rosto e foi partindo, foi nesse momento em que
eu encontrei coragem e o perguntei surpresa:
__E ele vai demorar muito? Se eu
puder fazer um pedido, só queria pedir para ele não demorar...
Como um anjo muito sacana que era, ele apenas me falou da forma mais simples e terna:
__Que menina curiosa... Minha filha,
acredite, tenha coragem e fé no amor, mas lembre-se, de também se amar, pois
você ama todo mundo e esquece-se de si. Aprenda a se amar em primeiro lugar e espera,
o que é seu irá chegar.
Ele sorriu e subitamente sumiu,
assim, como se nunca tivesse existido.
Virei então para o lado, enxuguei
aquela última lagriminha, respirei fundo e dormi.